Introdução — por Simon Halfon

Na tradução de hoje, traduziremos a introdução do livro, feita pelo curador da obra Simon Halfon, que também atuou na produção do documentário da banda, tendo o mesmo nome, e que foi lançado oficialmente entre os dias 2 e 7 de outubro de 2016 (nos cinemas do Reino Unido) mas só sendo lançado oficialmente no Brasil e no streaming digital, no dia 31 de outubro de 2016.

“Quão ocupado você está?” Essa foi a primeira pergunta de Noel enquanto ele se sentava em nossa cozinha enquanto eu lhe servia uma xícara de chá forte, em algum momento nos primeiros meses de 2014.

Naquela época, já haviam se passado mais de vinte anos desde que ele e eu nos conhecemos em Los Angeles, onde eu morava na época. O Oasis estava gravando um vídeo para uma versão americana de seu single “Supersonic”. Naquela época, eu desenhava capas de discos, inclusive para Paul Weller, e por acaso mencionei a ele por telefone que daria uma passada no set, já que o diretor Nick Egan — outro expatriado — era um amigo em comum. Paul me disse que eu deveria me apresentar, sem esquecer de dizer a Noel que éramos amigos. Foi realmente essa conexão que serviu como um selo de ouro, primeiro na sessão de fotos e depois naquela mesma noite no Hollywood Roosevelt Hotel, onde fui convidado para tomar uma ou duas cervejas com a banda. Foi aí que minha amizade com Noel e Liam começou e nos próximos dois anos, eu os via com bastante regularidade quando eles passavam pela cidade bem rapidinho, seja para um show ou outra gravação de vídeo.

Para preencher brevemente as lacunas entre aquele primeiro encontro e aquele chá com Noel vinte anos depois: em meados de 1996, eu estava morando em Londres novamente a um pulo das casas de Noel e Liam, no noroeste de Londres, e nos víamos bastante.

No final dos anos 90, comecei a desenhar capas de LPs para o Oasis e, ao mesmo tempo, tive o privilégio de tirar fotos da banda de perto, seja no estúdio, em Paris, Milão ou até mesmo em uma viagem de volta com eles para a Costa Oeste. Os rapazes eram extremamente acolhedores em seu próprio estúdio Wheeler End, em Buckinghamshire, na Inglaterra, onde era um ponto de encontro regular. Por lá, você sempre parecia ser membro de uma espécie de clube de cavalheiros, onde o tempo era dividido — na maior parte — entre conversar, rir e ouvir boa música.

Então lá estávamos nós, em 2014, na minha cozinha. Noel me disse que em agosto de 2016, seria o vigésimo aniversário dos dois shows históricos do Oasis em Knebworth e logo me perguntou se eu estaria interessado em produzir um pequeno documentário para comemorar. Eu aceitaria? Nem preciso dizer que respondi imediatamente com um “Sim” muito entusiasmado. Para ser honesto, fiquei incrivelmente lisonjeado com o convite e só mais tarde naquela noite, tive a chance de pensar melhor sobre o potencial e a dimensão dessa ideia. Onde me pareceu que não se tratava apenas de um documentário curto para a TV, e sim, um verdadeiro “passeio pela memória”. Eu realmente senti que aqueles três primeiros anos da história do Oasis, desde a assinatura com Alan McGee até os seus shows históricos em Knebworth, foram nada menos que um verdadeiro fenômeno. Pois eu recentemente, tinha assistido ao excelente documentário de Senna, de Asif Kapadia, e sentia que essa celebração de longa-metragem para o cinema, onde poderíamos utilizar imagens de arquivo juntamente com entrevistas de áudio contemporâneas, poderia ser uma excelente ideia para contar a história da banda também.

Com isso em mente, entrei logo em contato com James Gay Rees, produtor de Senna, para ver se ele estaria interessado em colaborar nesta ideia de longa-metragem também. E assim, James topou na hora. Entrando logo na sequência, como produtor executivo o Asif; porém, ele não estava disponível para dirigir o filme, pois estava no meio das filmagens de Amy, além de já estar comprometido com outro projeto logo em seguida também.

Precisávamos o quanto antes de um diretor. E antes disso tudo vir à acontecer, eu já havia tido alguns contatos com Mat Whitecross em um outro projeto cinematográfico que, como a maioria dos projetos cinematográficos, infelizmente não deu em nada. Lembro-me de ter ficado realmente impressionado com sua paixão, compreensão e comprometimento. Além de Mat ser um cineasta superinteligente. Eu também sabia que ele já havia trabalhado com o Coldplay também, além dele já ser amigo deles desde os tempos de estudante, onde ele teria uma compreensão real da dinâmica de uma banda de rock. E assim, acabamos abordando o Mat e, felizmente, ele, assim como eu, aceitou aquela proposta imediatamente. Agora ele e sua parceira de produção, Fiona Nielson, também estariam firmemente à bordo.

Tudo o que precisávamos agora era que o Liam também aprovasse aquela ideia. Então, Mat, James e eu fomos a um restaurante em Highgate (no norte de Londres) para nos encontrarmos com ele e sua parceira, a Debbie, para discutir a ideia. Ele estava interessado, mas tinha duas perguntas: “Quem é o herói e quem é o vilão?

Essa foi uma pergunta fundamental e que nos levou a ter certeza de que este filme seria absolutamente justo e franco para contar a história da banda. É uma história que vai além do fenômeno para contar a história de um grupo que capturou o espírito da época, mas com a história de dois irmãos em seu coração.

Ao longo de 2015, com Mat Whitecross no comando, conseguimos entrevistar todos os principais envolvidos detalhadamente, o que nos permitiu fazer de Supersonic o filme que esperávamos que fosse. Tivemos muita sorte de ter acesso a tantas pessoas próximas à banda, incluindo familiares. Todos gentilmente e sinceramente contaram suas histórias com grande profundidade, ao longo de muitas e muitas horas.

Mat fez um trabalho excepcional entrelaçando as histórias, criando um filme que ressoou em um nível incrível com a banda, os fãs e os críticos, chegando até a ganhar alguns prêmios ao longo do caminho. Não foi apenas o Liam que afirmou que o filme era “bíblico”. Os fãs do filme se espalharam por todos os cantos, desde o falecido George Michael à Chris Martin, passando por Paul Thomas Anderson e Ewan McGregor. Lena Dunham até organizou uma exibição em Los Angeles com Brad Pitt apresentando o filme. Sim, Brad Pitt. O que foi realmente surpreendente, no entanto, foi que o filme realmente tocou uma nova geração de jovens que nem tinham nascido quando o Oasis tocou em Knebworth.

Conforme o vigésimo quinto aniversário de Knebworth se aproximava, achei que era a oportunidade perfeita para revisitar as transcrições de todas as entrevistas gravadas para o filme. Nós tínhamos mais de dezesseis horas gravadas com Noel e doze com o Liam. Não foi fisicamente possível incluir tudo em um documentário de duas horas, então a ideia de um livro, sem cortes, fez todo o sentido. O bom senso dessa ideia foi confirmado nos últimos meses, durante os quais tive a oportunidade de revisitar e analisar profundamente as transcrições completas com todos os envolvidos.

Como resultado, este livro realmente parece ser a palavra final, um complemento completo e verdadeiro para um documentário do qual me orgulho muito e um verdadeiro testemunho de uma banda que realmente importou e ainda importa até hoje.

Simon Halfon,

Junho de 2021.

Liam: O Oasis era definitivamente como uma Ferrari: ótima de se ver, ótima de dirigir. De vez em quando, ela saía do controle quando você ia muito rápido. Eu preferiria isso a qualquer dia do que o velho Volvo — estar em uma banda como aquela não me interessava nem um pouco — Nós só queríamos aproveitar ao máximo, todos os dias, nos divertir muito, todos os dias, e se acabasse amanhã, que acabasse amanhã.

Noel: Eu voltaria e faria aquela jornada de novo sem pensar duas vezes.

Liam: Eu só queria tudo ali, naquele instante. O começo, o meio e o fim, agora mesmo. Eu só queria. Qualquer que fosse o final, eu queria agora, e qualquer que fosse o meio, eu queria agora, e qualquer que fosse o começo… Eu só queria que tudo acontecesse em uma grande explosão de loucura.

Noel: Todo mundo costumava dizer: “Somos a melhor banda do mundo”. Não tenho certeza se alguém realmente acreditava nisso. Eu realmente acreditava. E ainda acredito até hoje. Houve um período em que éramos intocáveis. Era apenas curto — dezoito meses, talvez dois anos — mas estávamos lá em cima com os grandes.

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